Macumba em Londres

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Pois eh zifia, ateh aqui se ve dessas coisas, affff

O terreiro fica em Willesden. Noroeste de Londres. Bairro globalizado. Judeus, irlandeses, negros.

O terreiro é um flat térreo numa casa comum de três andares. Funciona às sextas-feiras. O pai de santo recebe os convidados na entrada. Todo de branco, expressão séria.

O terreiro ocupa apenas a sala de estar. Para um lado foi rolado o tapete, num canto um boom box batuca tambores, noutro um rapaz muito branco, sem camisa, está sentado de cócoras, mexendo com conchas: é o preto véio.

Duas mocinhas com lenço branco na cabeça, lembrando ciganas, ensaiam uns passos no centro da sala. Uma poltrona e uma mesa desmontável ficaram empoleiradas no corredor. Na parede, um poster do Cristo Redentor e outro da cachaça 51 (“The favorite flavour of Brazil”). Alguém comenta que, se é inglês britânico, o “favorite” deveria ser com U, “favourite”, feito o “flavour”. Falou um pouco alto demais. O dono da casa, ou pai de santo, faz uma cara feia.

Durante a semana, trabalha atrás do balcão de uma churrascaria de rodízio em Willesden Junction. A mesma pessoa que fez a observação sobre a falta de unidade ortográfica do poster, agora em voz mais baixa, respeitosa, explica para o companheiro ao lado, que as duas moças são pomba-giras e, quando não estão empombadas ou girando, estudam inglês numa escola de Oxford Street e aguardam uma decisão sobre a legalidade de seus casamentos. Uma com um polonês, outra com um escocês.

Deve haver, entre os assistentes, umas 6 pessoas. Quase o mesmo número de participantes ativos. Sem qualquer aviso, os trabalhos têm início. Quem informa é o boom box com o volume lá em cima espalhando pelo recinto tambores, atabaques e instrumentos de percussão variados.

O pai de santo solta o primeiro “êe” da noite. Levanta o braço direito como um boxeador que defende o rosto, deixa o esquerdo cair ao longo do tronco. Curvado, após mais um ou dois “êes”, se anuncia tomado. Lembra vagamente Chico Anísio numa de suas encarnações dos anos 70. Diz em voz negroide que o Caboclo das Sete Encruzilhadas estava presente. As pomba-giras executam uma pequena dança, os olhos voltados para o chão, as duas mãos cruzadas nas costas. “Êe” cantarolam suaves. Como se não querendo roubar a cena do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

O rapaz de cócoras acende um charuto e passa-o para o pai de santo. Depois acende outro para ele mesmo. Não se sabe direito de onde, surge uma garrafa de cachaça. A 51. O caboclo dá uma boa talagada pelo gargalo. Passa a garrafa para as pomba-giras que repetem o ritual. O que sobra, e não é muito, volta para o rapaz no chão, que liquida de vez com a aguardente. Solta um “êê” em tom decidido e começa a sacudir as conchas na mão. O pai de santo executa algo parecido com passos de dança murmurando resmungos ininteligíveis.

Alguém, sempre o mesmo alguém misterioso, quase invisível, aumentou, ao que parece, o som do poderoso rádio de mão. Dois dos assistentes, um homem e uma mulher, de aspecto indistinto, vão se entender com o rapaz sem camisa, o preto véio. Pedem para que jogue os búzios. Que são jogados. Bem alto, todo mundo ouvindo, conclama quase com a mesma voz do pai de santo, apenas um pouco mais gutural, que é para ele tomar cuidado pois querem “quebrar a perna dele”. Depois, como uma vírgula, outro “êe” e agora a sorte é para a moça: ela que se cuide pois “cavalo preto quer montar nela”. Cara sem graça dos dois. No terreiro, charutadas, passos curtos e corcovas.

Uma ou duas horas depois, todos restabelecidos. Quem era para subir, subiu. Ficou quem era para ficar. O boom box agora na estação de reggae, bem baixinho. Servem croquetes, pão de queijo e caipirinha. Passam um vaso decorado com uma arara para contribuições destinadas a manter o terreiro, que não se destina a fins lucrativos, como deixam bem claro.

Na estação de Willesden Green, esperando o metrô que os leve ao centro, onde serão feitas as devidas baldeações, dois dos convidados de primeira viagem, comentam a autenticidade do evento de que participaram. Debatem ainda, sem muita erudição, pormenores do sincretismo religioso brasileiro, e quais as diferenças entre macumba, umbanda, quimbanda, candomblé e espiritismo kardequiano. Não entendem nada. Faz frio. Um deles solta um “êe”. O outro olha feio.

fonte: Ivan Lessa -Colunista da BBC Brasil

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  1. Égua mana eu já tava jurando que tu tinhas desistido do espaco. Maravilha… já linquei, feedei e nao te perco mais!!!!

    Mana terreiro de macumba tem aqui também… em Zurique… dá uma busca que tu vais encontrar um até ai do teu lado ahahhahahahh

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