Coisas que não servem pra nada…

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De outubro a dezembro, Porto Alegre receberá a maior exposição de arte urbana do mundo, a Cow Parade. Dezenas de vacas de fibra de vidro, em tamanho natural, ficarão espalhadas pela cidade, todas decoradas por artistas plásticos, diretores de arte, designers e cartunistas. Um nonsense mais que bem-vindo, uma intervenção no nosso olhar acostumado. Ao passar por ruas, parques e viadutos, seremos surpreendidos por elas, vacas enormes, coloridas, profanas, insólitas. Para quê? Para nada de especial, apenas para espantar o tédio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais.

Um descrente não se convenceria: “Se não serve para nada, então qual o sentido?”.

Convocarei a poesia para tentar explicar.

Ela, a poesia, serve para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do nosso andar, para interromper um hábito, para provocar um estranhamento, para nos fazer pensar, para nos resgatar do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.

Ainda ouço o sujeito resmungando: “Ou seja, também não serve pra nada”.

Hoje em dia, quando se quer elogiar alguma coisa, costuma-se dizer: “Fulano é tudo”, “O filme é tudo”. Quanta consistência, quanta importância. Tudo!

Diante da soberania do tudo, defendo o nada e sua valiosa despretensão. Flores não servem para nada, mas não abro mão de tê-las por perto, me fazendo companhia dentro de casa. Velas não servem para nada (quando se tem energia elétrica), mas eu as acendo mesmo assim, para que atraiam bons espíritos. Para que serve viajar, havendo cartões-postais? Os cartões ao menos podem ser grudados na parede, mas lembranças, se faz o que com elas? Para que serve comer um prato caro e elaborado se, horas mais tarde, ele terá o mesmo fim que um reles feijão com arroz? Para que serve a arte? Para que serve a paixão? Para que serve mergulhar, escalar uma montanha, saltar de paraquedas?

Contaminados pela síndrome da utilidade, estamos perdendo o hábito de reverenciar a nobreza daquilo que serve apenas para ser contemplado, daquilo que desperta um prazer sensitivo e nada mais.

O tudo (tecnologia, religião, política, família) nos incute metas, ritos, obrigações, distraindo-nos assim da ideia da morte. Mas é o nada que, em sua extrema pureza, dá o verdadeiro sentido à vida.

“A vida é feita de sensações”.

Autor: Marta Medeiros

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